Vou tentar não ser chato e falar com paixão de torcedor. Ainda não entendi as razões concretas de Muricy ter abandonado o Fluminense.
Muricy saiu atirando para todos os lados. Sobrou até para os ratos. Externou problemas que há muito, mas muito tempo mesmo o Fluminense empurrava com a barriga. Literalmente, se lembrarmos de 2005.
Um título carioca aqui. Uma Copa do Brasil ali. Boas campanhas no Brasileiro, Sul Americana, Libertadores, além de vários medalhões que enchiam a torcida de esperança a cada ano.
Mas ao olhar para trás, o que vemos são 10 anos com a mesma história sendo contada. Desde quando Parreira assumiu o clube na Série C, a promessa de reconstrução do Fluminense é feita.
A dívida só aumentou. Xerém, que era para revelar jogadores, vende como num feirão de final de semana: a preços imperdíveis. Ainda mais quando se trata com o mercado exterior. E as Laranjeiras onde o time treina, tem um projeto pronto. Para ser tombada como patrimônio histórico e cultural.
Muricy, vamos ser sinceros. De longe você não enxergava isso?
Os problemas no Fluminense se arrastam há anos. Mesmo em outro clube, não é possível um profissional do seu gabarito não perceber. Ainda mais você, que vive do futebol e tem passagens por clubes onde as estruturas são verdadeiros exemplos. Não dá para acreditar que você assinou um contrato achando que em dez meses tudo fosse mudar.
Muricy, eu concordo com você. O Rio é uma cidade mágica, que encanta. Mas você perdeu a noção de que nada se transforma da noite para o dia.
A torcida te queria de braços dados. Você não teve a paciência de esperar. Que assim seja. Esperar não é saber. Deve ser por isso que paixão de torcedor não se explica.
Fica assim, Muricy. Você vai caminhando e nós continuamos seguindo a canção: Sou tricolor de coração, do clube tantas vezes campeão.
Inobstante o fato de que a nova gestão do clube demitiu pessoas próximas ao treinador, por se tratar de fato não abordado em seu artigo, vou me ater à questão levantada aqui.
Sem dúvida o técnico Muricy Ramalho tinha pleno conhecimento da situação do clube quando da assinatura do contrato, especialmente no que diz respeito à sua estrutura e que a resolução está obrigatoriamente vinculada a um cronograma e planejamento financeiro – o que, como dito em seu texto, não existe no Fluminense, e que eram parte das promessas e acordo fechado com o técnico.
E é por saber disso que almejava, no mínimo, o rascunho, planejamento ou propostas que envolvessem tais promessas, ou seja, indícios de que o clube passaria pela esperada transformação, o que não ocorreu nesses 10 meses.
O Fluminense continuou, com você apontou, “empurrando com a barriga” esse problema, fechando os olhos para os problemas que claramente existem, com a típica postura brasileira de que tudo está sempre bem e, “logo eles esquecem”.
Talvez por acreditar que o salário do técnico, por ser o maior do mercado, deixaria qualquer revés em segundo plano. Imagino que a diretoria sim deveria saber que estava lidando com um “homem de palavra”, que, como poucos, disse “não” à seleção por priorizar seu contrato.
Que certamente compreende que nem tudo iria mudar em 10 meses; quem tem, sim, a noção de que nada se transforma da noite para o dia; e que, dentro disso tudo, esperou pacientemente o mínimo de um clube do tamanho do tricolor carioca, demonstração de comprometimento, não o “empurrar com a barriga”.